Gourmet da música: Música de qualidade

Quando eu estudei francês, aprendi que o Gourmet não é o cozinheiro, mas sim o que aprecia a boa comida. O Gourmet da música, então, é todo aquele que, não sendo um profissional ou um profundo conhecedor, ainda é capaz de apreciar diferentes estilos musicais, já tendo vencido alguns preconceitos, e sendo adepto puramente do som. Quem não teve a oportunidade na infância e juventude ainda pode mergulhar neste universo? Este post reúne reflexões e também um depoimento de quem põe a mão na massa pra levar música de qualidade para as pessoas.

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Música de qualidade para todos: a universidade e a comunidade

Everton Barbosa (na foto comigo), professor de literatura na Universidade do Estado do Mato Grosso, conta uma experiência que vem realizando no intuito de utilizar a música para beneficiar a comunidade e os seus alunos. Abaixo, ele nos conta sobre o projeto:

“Cheguei a estudar violão com o objetivo de ser um profissional da área de música, mas as coisas tomaram outro rumo. Apesar disso, nunca me distanciei dela, por necessidade, mas também pela sensação de que o conhecimento que tinha, ainda que básico, tornava minha experiência e percepção artísticas diferentes, que iam além de uma questão de gosto, e isso influenciava outras áreas da minha vida.

No caminho tomado como professor de um curso de licenciatura numa universidade pública, em contato com outros professores também artistas, surgiu a ideia de um trabalho de divulgação de poemas e músicas como opção artística diferenciada para o público do local em que atuamos, que é a cidade de Tangará da Serra, em Mato Grosso. O trabalho é simples e não é uma novidade como proposta, mas ele é e será sempre necessário em contextos em que a variedade artística e cultural é reduzida.

musica-de-qualidade-formacao-de-plateiaNosso projeto tem, então, o objetivo de tocar músicas e declamar poemas de variadas fontes culturais, dando informações sobre contexto, composição e artistas. A proposta é de estimular em quem ouve o interesse em experimentar a arte de forma mais complexa, para além do entretenimento, não porque o entretenimento seja algo ruim, mas porque ele é apenas uma das faces da experiência artística. E ele se torna a face mais superficial quando caracteriza a produção artística voltada para o mercado. Se a sobrevivência do músico profissional é necessária, e ela se dá pelo mercado, por outro lado uma mercantilização excessiva da arte infelizmente tem como resultado a limitação da liberdade criativa e da experimentação.

A divulgação da variedade cultural e de aspectos da criatividade artística não tem, no entanto, o objetivo de impor valores. Isso geraria mais preconceito e divergência social, porque implicaria em tocar de forma agressiva as feridas das identidades pessoais e coletivas, acirrando a disputa entre os gêneros artísticos e as classes que eles representam. Mostrar a variedade e as estratégias criativas da arte é tentar dar autonomia de escolha a quem ouve, para que tanto a experiência quanto a produção sejam mais livres e espontâneas, o que pode fazer com que sejam baseadas nas necessidades afetivas e espirituais do ser humano, mais do que em suas necessidades fisiológicas, de sobrevivência material.

Se é assim mesmo, então é preciso estimular o conhecimento mais complexo e abrangente da arte também entre aqueles que a consomem. O conhecimento não é necessariamente o conhecimento da teoria musical ou poética como vemos na universidade. No sentido que queremos dar, é mais o reconhecimento das formas criativas nas diversas culturas em que a arte acontece de forma espontânea, por livre vontade, e não apenas porque ela representa um ideal de carreira e sobrevivência, inclusive de pessoas que não possuem conhecimento teórico.

Abrir a mente e a percepção para a diversidade artística e para a capacidade criativa do ser humano em qualquer lugar e tempo é também uma forma de estimular o equilíbrio social, a compreensão e aceitação do diferente. Mas essa abertura certamente não ocorre sem conhecimento, sem entender que a arte é mais do que um passatempo de fim de semana, ou de programas de auditório, ou do rádio no caminho do trabalho, que consumimos como uma comida que nos mantém, mas não nos transforma profundamente”.

Música de qualidade: Pra que serve?

musica-de-qualidade-infanciaO depoimento acima nos mostra como é profunda a necessidade de se conhecer a música e as artes em geral de forma íntima. Sem apontar defeitos na produção comercial, o fato é que a arte simplesmente não se limita ao que vende.

Mas no fundo desta questão, uma única pergunta? Para que serve a arte? Ou, para que serve a música?

Esta é uma pergunta difícil de se responder, mas arrisco aqui uma resposta:

A música serve para treinar a escuta, que é o que nos une como seres humanos. Acredito que sem a escuta, não passaríamos de gladiadores, lutando exclusivamente pela sobrevivência.

Sendo assim, qual é o contrário desta versão perversa da realidade?

É uma sociedade cooperativa, onde a gentileza não é uma virtude diferenciadora, mas apenas a extensão dos sentidos humanos mais básicos, onde todos são condenados pela própria consciência, sabendo que o amor ao próximo é fruto exclusivamente de um amor próprio, alcançado através da auto percepção e contemplação, da natureza e de toda a realidade.

É para isto que acredito servir a música.

 

 

 

 

 

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